1

Imi Lichtenfeld – A infância e juventude.

O Krav Maga tem sua origem diretamente ligada à trajetória de um homem, que viveu na prática, a necessidade de sobreviver, não se pode entender o Krav Maga sem antes conhecer Imi Lichtenfeld. Imrich Lichtenfedl (nome verdadeiro) nasceu em 26 de maio de 1910 em Budapeste, sendo o caçula de dois filhos (seu irmão mais velho se chamava Arped), mas passou sua infância e juventude em Bratislava (então parte da Tchecoslováquia).

A população judaica eslovaca era predominantemente ortodoxa, o que causou certo isolamento e também desunião dentro da comunidade. Um problema persistente era a ideia de inclinação para a nacionalidade húngara, que tinha seu equivalente nas terras checas de inclinação para a alemã. Além disso, a crise econômica global atingiu a Checoslováquia de forma muito significativa, devido à natureza exportadora de sua economia, o que, juntamente com os fatores mencionados acima, causou tumultos e ataques antissemitas e também afetou a vida de Imrich Lichtenfeld e sua família.

O pai de Imi, Samuel Lichtenfeld, nasceu na vila de Mliečno, perto de Šamorín, em 1870. Samuel era policial, mas não era apenas um policial comum — ele ocupava uma posição de destaque na polícia de Bratislava. Ele atuava como chefe do departamento de investigação (detetive) da polícia local, sendo responsável por lidar com crimes e investigações. Além disso, Samuel também era reconhecido por seu trabalho no treinamento físico e na preparação de policiais, especialmente em técnicas de defesa pessoal. Chegou a ensinar e treinar policiais nessa nova habilidade e, a partir de 1908, seus colegas de trabalho.

Ele próprio tinha talento para os esportes, fundou uma academia, onde ensinava combate corpo a corpo, uso da força de forma eficiente e preparação física. Tratava-se do Parque ou Jardim Robinson, em Kráľovské údolí, Bratislava, onde o público podia usar os equipamentos de ginástica, além de frequentar o restaurante e organizar eventos sociais. A crise econômica, juntamente com a paralisação da construção da linha de bonde para Karlová ves, levou à falência da empresa, da qual Samuel levou muito tempo para se recuperar.

Tendo inclusive trabalhado por algum tempo no circo e se apresentado em shows de variedades sob o pseudônimo de Sr. Robinson. Dominou o jiu-jitsu e tornou-se um entusiasta promotor da arte marcial.

Esse ambiente teve influência direta na formação de Imi, que desde jovem conviveu com práticas reais de defesa, disciplina e aplicação prática da luta — muito além do esporte.

Essa base familiar foi essencial: antes mesmo das experiências nas ruas e na guerra, Imi já carregava um legado técnico e mental vindo diretamente do trabalho policial de seu o pai, onde técnicas de luta eram ensinadas de forma prática e eficiente. Desde cedo, Imi teve contato com esportes como boxe, luta livre e ginástica, destacando-se como atleta e desenvolvendo uma base sólida no combate corpo a corpo.


2

A juventude de Imi em Bratislava.

Imi cresceu em um ambiente onde disciplina e combate já faziam parte da sua vida. Incentivado por seu Pai Samuel, participou de uma grande variedade de esportes.

Sempre incentivado por seu pai praticar esportes, e ambos participaram ativamente do clube atlético Hércules e do clube Macabeu. Clubes Macabeus foram fundados em todo o mundo, e os chamados campeonatos Macabeus também eram realizados – neste último, organizado em 1935 na Palestina, Imi participou como representante na luta greco-romana. Foi sua primeira visita a esse país, para o qual ele retornaria em breve, em uma função completamente diferente.

Imi ainda jovem, começou a praticar várias modalidades de esportivas e se destacou, em natação, ginástica, luta livre e boxe. Foi membro do Primeiro Clube Atlético de Prossburg e do Makabea Bratislava. Em 1928, venceu o campeonato júnior de boxe da Tchecoslováquia e, em 1929, o campeonato adulto (nas categorias peso-leve e peso-médio). No mesmo ano, também venceu o Campeonato Nacional e conquistou o primeiro lugar em uma competição interna de ginástica. Ao longo da década seguinte, suas atividades se concentraram principalmente na luta livre, tanto como atleta quanto como treinador. Trabalhou como professor de educação física e cumpriu o serviço militar em Bratislava, no Regimento.

Essa combinação de modalidades moldou um lutador completo. Imi não apenas treinava — ele competia em alto nível, conquistando títulos e reconhecimento. porem mais importante do que as vitórias, foi a compreensão profunda que ele desenvolveu sobre o combate real: cada modalidade tinha seus pontos fortes, mas também limitações quando aplicada fora do ambiente esportivo.

Foi essa base sólida — construída entre o boxe, o judô e a luta greco-romana — que preparou Imi para os desafios que viriam a seguir. Quando a realidade das ruas substituiu os ringues e tatames, ele já possuía o conhecimento necessário para adaptar, simplificar e transformar técnicas em algo muito mais direto e eficaz.

A vida de Imi Lichtenfeld passou por experiências pouco conhecidas — mas extremamente importantes para sua formação física e mental.

Na juventude, além das lutas, Imi teve envolvimento com o mundo do espetáculo, chegando a atuar em apresentações ligadas ao ambiente de circo. Esse período contribuiu diretamente para o desenvolvimento de habilidades como coordenação motora, agilidade, equilíbrio e consciência corporal — capacidades que mais tarde seriam fundamentais na construção de um sistema de combate eficiente e natural. No Krav Maga original a prática de arremesso com facas, vem da experiencia de Imi como arremessador, e ainda que não seja forte no Krav Maga, existe e é praticada em memoria de IMI.

Outro ponto interessante, embora menos documentado e com poucas fontes sólidas, é a menção à sua passagem por ambientes ligados à dança, especialmente em cidades como Viena. Essas referências aparecem em alguns relatos, indicando que Imi teve contato com práticas que envolviam ritmo, controle corporal e fluidez de movimento.


3

A segunda guerra mundial.

A vida de Imi Lichtenfeld foi profundamente marcada pelo contexto da Segunda Guerra Mundial e, principalmente, pela ascensão do Nazismo na Europa.

No final da década de 1930, Bratislava — onde Imi vivia — passou a ser um ambiente cada vez mais hostil para judeus. Apesar de o país garantir todos os direitos civis, políticos e religiosos aos judeus, o antissemitismo latente persistia, manifestando-se principalmente na década de 1930, em decorrência da crise econômica global e da situação em transformação na Alemanha. Com o crescimento da perseguição, violência e leis discriminatórias, ele deixou de ser apenas um atleta para se tornar um defensor ativo da comunidade judaica. Utilizando sua experiência no boxe, judô e luta, Imi organizou grupos para proteger bairros judeus de ataques antissemitas.

Durante a chamada Segunda República e o Estado Eslovaco, os ataques contra a população judaica tornaram-se mais frequentes. O jovem Imi foi obrigado a assistir a manifestações antissemitas. Grupos de jovens de nacionalidade alemã, ou estudantes do dormitório Svoradov, percorriam as ruas onde ele costumava circular, incitando seus correligionários a deixarem o espaço comum. Os ataques físicos contra judeus também aumentaram, como, por exemplo, o ataque a Fischer, proprietário do Hotel Judea (na atual Župný námestie), em março de 1939.

Em resposta a eventos semelhantes, Imi Lichtenfeld, juntamente com o renomado lutador David Unreich e outros membros do Makkabea Club, fundou uma unidade judaica de autodefesa. Foi durante esse período que ele adquiriu experiência em lutas de rua, Imi Lichtenfeld participou e organizou grupos de defesa formados por membros da comunidade judaica, atuando diretamente na proteção de pessoas diante da violência crescente nas ruas.

Essas experiências reais moldaram os princípios práticos e objetivos que mais tarde dariam origem ao Krav Maga. Foi nesse período que ele percebeu, na prática, que técnicas esportivas precisavam ser adaptadas para situações reais de rua — rápidas, diretas e sob extremo estresse.

Não eram movimentos formais de resistência como guerrilhas estruturadas, eram grupos locais, improvisados, formados por jovens da própria comunidade. O objetivo era proteger pessoas, e realizar ações ofensivas organizadas contra o regime.

Esses grupos atuavam de forma prática:

Escoltando moradores em áreas perigosas

Protegendo entradas de bairros

Reagindo a ataques nas ruas

Criando uma presença dissuasiva contra agressores.

Foi nesse cenário que Imi enfrentou algo decisivo:

a diferença entre lutar em um esporte e lutar para sobreviver.

Ele percebeu que:

Técnicas complexas falhavam sob estresse.

Regras simplesmente não existiam.

Havia múltiplos agressores e armas improvisadas.

Essa vivência foi o embrião do que viria a ser o Krav Maga.

Imi permaneceu em Bratislava mesmo após a cidade se tornar capital do Estado eslovaco colaboracionista. Com o aumento do perigo, decidiu deixar sua terra natal, assim como seu irmão Árpád, que sobreviveu à guerra na Suíça. Seus pais permaneceram na Eslováquia — uma decisão trágica: embora tenham escapado de uma deportação inicial em 1942, acabaram sendo assassinados em Auschwitz.


4

O navio pentcho.

Com o avanço do conflito e o aumento do risco de vida, Imi foi forçado a fugir da Europa. Ele embarcou no navio conhecido como Pentcho, uma embarcação improvisada que transportava refugiados judeus tentando fugir da Europa dominada pelo Nazismo.

Imi foi incluído na lista de passageiros de transporte de emigrantes judeus em 8 de novembro de 1939, e o navio zarpou em 18 de maio de 1940. A bordo do navio superlotado (projetado para cerca de 200 pessoas, mas com aproximadamente 500 a bordo) estavam cidadãos de diversos países sob o comando do Capitão Igor Markejevič.

Durante a viagem, Imi atuou ajudando na segurança, organização e sobrevivência dentro do navio — algo fundamental, já que as condições eram extremamente precárias.

A viagem foi extremamente difícil: o navio enfrentou falhas mecânicas, escassez de alimentos e acabou naufragando próximo a uma ilha no mar Egeu.

Esses acontecimentos fazem parte de uma das fases mais dramáticas da vida de Imi e ajudam a explicar a base realista do Krav Maga: ele não teve influencias em academias, mas em cenários de sobrevivência.

Esta parte da historia do Imi, encontra-se no livro ODYSSEY de John Bierman, não é uma biografia sobre Imi Lichtenfeld, mas narra de forma detalhado a jornada dos 500 judeus que tentaram escapar da Europa dominada pelo Nazismo a bordo desta embarcação improvisada.

O Pentcho partiu com estrutura precária, enfrentando desde o início problemas técnicos, superlotação e falta de recursos básicos. Ao longo da viagem, os passageiros lidaram com fome, sede, doenças e a constante incerteza sobre o destino.

Um dos momentos mais dramáticos narrados na obra é o naufrágio do navio próximo a uma ilha deserta no mar Egeu. Os sobreviventes, incluindo Imi ficaram isolados, sem suprimentos adequados, enfrentando fome, sede e total incerteza; dependendo da organização interna e da resistência física e emocional para permanecer vivos até o resgate. A sobrevivência dependia da organização, da resistência física e da capacidade de adaptação de cada um.

Cinco homens partiram em um bote salva-vidas em busca de ajuda, Após dias nessa condição extrema, o grupo foi resgatado.

A United States Holocaust Memorial Museum afirma que: Os sobreviventes foram resgatados e levados para campos de detenção sob controle da Itália fascista, e levados para Rodes (Rhodes), permaneceram lá por mais de um ano em um campo improvisado, prolongando ainda mais o sofrimento, depois foram soltos. A história deles também teve um final feliz, ao contrário da comunidade judaica de Rodes, que não escapou do transporte para Auschwitz.

Este contexto ajuda a entender o tipo de experiência extrema vivida por pessoas como Imi naquele período.

Há ainda outras fontes que alegam que Imi poderia não ter embarcado diretamente pelo Pentcho, mas ter chegado ao Egito através de outra embarcação, e posteriormente Imi poderia ter ajudado a trazer tribulação de judeus do Pentcho a antiga Palestina. todavia hoje se sabe que o nome de Imi lichtenfeld estava na lsita de passageiros da embarcação. Pode-se afirmar que, de uma forma ou de outra, ou por ter saída da Europa na embarcação, ou ter encontrado o Pentcho para ajuda-los e sua jornada a Israel, a tribulaão do Pentcho e Imi Lichtenfeld vivenciam juntos o episodio no Naufragio.

Durante a viagem no Pentcha, Imi salvou um menino que se afogava e contraiu uma infecção de ouvido. Como um dos companheiros de viagem de Imi, o médico Jozef Hercz, recordou mais tarde, a vida de Imi corria perigo iminente.Após a operação em Alexandria, ele sobreviveu, mas o lado esquerdo do rosto ficou paralisado. Os sobreviventes do naufrágio se recuperaram no Egito e decidiram se alistar no exército de exilados checoslovacos.


5

Legião tcheca.

Após sobreviver à fuga da Europa em meio ao avanço do Nazismo, Imi deu mais um passo decisivo em sua trajetória: ingressou nas forças que combatiam diretamente o regime nazista.

Era maio de 1941 quando Imi se juntou a uma unidade militar checoslovaca no Oriente Médio, se integrou a uma unidade formada por exilados da antiga Tchecoslováquia, conhecida como Legião Tcheca. Durante esse período, Imi serviu sob o comando do famoso comandante, mais tarde Brigadeiro-General Karel Klapálka. Ele esteve envolvido em atividades militares ligadas ao esforço aliado no Oriente Médio, uma região estratégica durante a Segunda Guerra Mundial. Ao final da guerra, a unidade da qual Imi fazia parte estava alocada no Egito, sob controle britânico, reunindo combatentes que haviam fugido da ocupação nazista e desejavam lutar contra o regime, foi assim que o soldado número 1165, Imrich Lichtenfeld, lutou no Oriente Médio, em combates na Líbia, Síria, Líbano e Egito.

Dentro desse contexto, Imi passou a atuar como instrutor e combatente, utilizando sua experiência em lutas e preparo físico para contribuir com o treinamento de tropas. Sua vivência anterior — tanto no esporte quanto nos confrontos reais nas ruas — se mostrou extremamente valiosa em um ambiente militar que exigia eficiência, resistência e adaptação constante.


6

Israel.

Após o período da guerra, Imi Lichtenfeld deixou o serviço militar e decidiu viajar de comboio até Israel e se juntar á resistência judaica lá, iniciava ali uma nova etapa da sua vida, ainda sem a dimensão do impacto que suas experiências carregavam.

Sua chegada não parecia, à primeira vista, um momento grandioso, mas sim a continuidade de uma trajetória marcada por desafios e sobrevivência. No entanto, aquele passo silencioso acabaria se tornando decisivo. Sem perceber, Imi levava consigo conhecimentos e vivências que, mais tarde, influenciariam profundamente a forma como gerações inteiras seriam preparadas para se defender, deixando uma marca duradoura na história do povo judeu em Israel, uma marca de criação e construção.

Após deixar o serviço militar ligado ao Exército Britânico durante a Segunda Guerra Mundial, Imi chegou à região ainda sob mandato britânico. Como muitos imigrantes judeus da época, ele foi inicialmente acolhido em estruturas coletivas, comumente ligadas a assentamentos e comunidades organizadas, onde o foco era reconstruir a vida em um território ainda em formação.

Nesse período, Imi começou a se conectar com organizações de defesa locais, especialmente a Haganá — uma força paramilitar judaica que atuava na proteção das comunidades na região antes mesmo da criação oficial do Estado de Israel. Foi ali que suas habilidades começaram a ganhar destaque.

Com experiência real em combate, tanto nas ruas da Europa quanto no ambiente militar, Imi rapidamente passou a contribuir no treinamento físico e na preparação de combatentes, percebeu que sua experiência prática em combate tinha um valor enorme para os jovens que integravam as forças de defesa judaicas. Sua abordagem prática — direta, simples e eficiente, se encaixava perfeitamente na necessidade da época: preparar rapidamente pessoas comuns para situações de conflito real.

Treinou membros da Haganá, do Palmach e do Palyam a partir de 1944.

Naquele período, os recursos eram extremamente limitados: havia escassez de armas de fogo e, mesmo quando disponíveis, muitas vezes faltava munição. Diante dessa realidade, Imi passou a adaptar e desenvolver métodos de combate focados na eficiência e na sobrevivência. Ele ensinava como reagir e neutralizar ameaças utilizando o próprio corpo e recursos simples — como bastões, facas ou qualquer objeto disponível — sempre priorizando movimentos diretos, rápidos e funcionais.

Essas técnicas nasceram da necessidade e da urgência de um contexto real de conflito. Inseridas no esforço coletivo de defesa, contribuíram para preparar homens e mulheres em um momento decisivo, que culminaria, em maio de 1948, na consolidação do Estado de Israel e na independência do povo judeu.

Com o fim da guerra, a independência e a criação do Estado de Israel, o estabelecimento das Forças de Defesa de Israel (IDF)e suas estruturas foram reorganizadas. A HAgana e a Palmach se unificaram e criaram o Exercito de Israelense, na Palmach pela primeira vez Imi começou a ensinar técnicas de defesa pessoal e mais tarde e assumiu um papel fundamental: tornou-se o INstrutor-chefe, principal responsável pelo treinamento de defesa pessoal e preparação física para combate dentro do exército na IDF.

Atuando como principal instrutor nessa área, Imi dedicou anos ao desenvolvimento e aperfeiçoamento de métodos voltados à realidade do combate militar. Sua atuação foi contínua e determinante, permanecendo nessa função até sua aposentadoria das forças armadas, em 1966.

A partir dali, o que começou como necessidade se transformou em método, e o método, posteriormente em uma arte que atravessaria fronteiras.

Fontes: Livro Genesis, A hisoria do Krav Maga de Jeffrey Tuchman & George Mayers
https://historylab.dennikn.sk/20-storocie/krav-maga-vznikla-v-uliciach-bratislavy/
Livro: Odyssey by John Bierman -1984
https://www.banskabystrica.sk/podujatia/imi-lichtenfeld-krav-maga-a-jej-tvorca-i-vystava/


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Imi Lichtenfeld – A Infância e juventude.

O Krav Maga tem sua origem diretamente ligada à trajetória de um homem, que viveu na prática, a necessidade de sobreviver, não se pode entender o Krav Maga sem antes conhecer Imi Lichtenfeld. Imrich Lichtenfedl (nome verdadeiro) nasceu em 26 de maio de 1910 em Budapeste, sendo o caçula de dois filhos (seu irmão mais velho se chamava Arped), mas passou sua infância e juventude em Bratislava (então parte da Tchecoslováquia).

A população judaica eslovaca era predominantemente ortodoxa, o que causou certo isolamento e também desunião dentro da comunidade. Um problema persistente era a ideia de inclinação para a nacionalidade húngara, que tinha seu equivalente nas terras checas de inclinação para a alemã. Além disso, a crise econômica global atingiu a Checoslováquia de forma muito significativa, devido à natureza exportadora de sua economia, o que, juntamente com os fatores mencionados acima, causou tumultos e ataques antissemitas e também afetou a vida de Imrich Lichtenfeld e sua família.

O pai de Imi, Samuel Lichtenfeld, nasceu na vila de Mliečno, perto de Šamorín, em 1870. Samuel era policial, mas não era apenas um policial comum — ele ocupava uma posição de destaque na polícia de Bratislava. Ele atuava como chefe do departamento de investigação (detetive) da polícia local, sendo responsável por lidar com crimes e investigações. Além disso, Samuel também era reconhecido por seu trabalho no treinamento físico e na preparação de policiais, especialmente em técnicas de defesa pessoal. Chegou a ensinar e treinar policiais nessa nova habilidade e, a partir de 1908, seus colegas de trabalho.

Ele próprio tinha talento para os esportes, fundou uma academia, onde ensinava combate corpo a corpo, uso da força de forma eficiente e preparação física. Tratava-se do Parque ou Jardim Robinson, em Kráľovské údolí, Bratislava, onde o público podia usar os equipamentos de ginástica, além de frequentar o restaurante e organizar eventos sociais. A crise econômica, juntamente com a paralisação da construção da linha de bonde para Karlová ves, levou à falência da empresa, da qual Samuel levou muito tempo para se recuperar.

Tendo inclusive trabalhado por algum tempo no circo e se apresentado em shows de variedades sob o pseudônimo de Sr. Robinson. Dominou o jiu-jitsu e tornou-se um entusiasta promotor da arte marcial.

Esse ambiente teve influência direta na formação de Imi, que desde jovem conviveu com práticas reais de defesa, disciplina e aplicação prática da luta — muito além do esporte.

Essa base familiar foi essencial: antes mesmo das experiências nas ruas e na guerra, Imi já carregava um legado técnico e mental vindo diretamente do trabalho policial de seu o pai, onde técnicas de luta eram ensinadas de forma prática e eficiente. Desde cedo, Imi teve contato com esportes como boxe, luta livre e ginástica, destacando-se como atleta e desenvolvendo uma base sólida no combate corpo a corpo.


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A juventude de Imi em Bratislava.

Imi cresceu em um ambiente onde disciplina e combate já faziam parte da sua vida. Incentivado por seu Pai Samuel, participou de uma grande variedade de esportes.

Sempre incentivado por seu pai praticar esportes, e ambos participaram ativamente do clube atlético Hércules e do clube Macabeu. Clubes Macabeus foram fundados em todo o mundo, e os chamados campeonatos Macabeus também eram realizados – neste último, organizado em 1935 na Palestina, Imi participou como representante na luta greco-romana. Foi sua primeira visita a esse país, para o qual ele retornaria em breve, em uma função completamente diferente.

Imi ainda jovem, começou a praticar várias modalidades de esportivas e se destacou, em natação, ginástica, luta livre e boxe. Foi membro do Primeiro Clube Atlético de Prossburg e do Makabea Bratislava. Em 1928, venceu o campeonato júnior de boxe da Tchecoslováquia e, em 1929, o campeonato adulto (nas categorias peso-leve e peso-médio). No mesmo ano, também venceu o Campeonato Nacional e conquistou o primeiro lugar em uma competição interna de ginástica. Ao longo da década seguinte, suas atividades se concentraram principalmente na luta livre, tanto como atleta quanto como treinador. Trabalhou como professor de educação física e cumpriu o serviço militar em Bratislava, no Regimento.

Essa combinação de modalidades moldou um lutador completo. Imi não apenas treinava — ele competia em alto nível, conquistando títulos e reconhecimento. porem mais importante do que as vitórias, foi a compreensão profunda que ele desenvolveu sobre o combate real: cada modalidade tinha seus pontos fortes, mas também limitações quando aplicada fora do ambiente esportivo.

Foi essa base sólida — construída entre o boxe, o judô e a luta greco-romana — que preparou Imi para os desafios que viriam a seguir. Quando a realidade das ruas substituiu os ringues e tatames, ele já possuía o conhecimento necessário para adaptar, simplificar e transformar técnicas em algo muito mais direto e eficaz.

A vida de Imi Lichtenfeld passou por experiências pouco conhecidas — mas extremamente importantes para sua formação física e mental.

Na juventude, além das lutas, Imi teve envolvimento com o mundo do espetáculo, chegando a atuar em apresentações ligadas ao ambiente de circo. Esse período contribuiu diretamente para o desenvolvimento de habilidades como coordenação motora, agilidade, equilíbrio e consciência corporal — capacidades que mais tarde seriam fundamentais na construção de um sistema de combate eficiente e natural. No Krav Maga original a prática de arremesso com facas, vem da experiencia de Imi como arremessador, e ainda que não seja forte no Krav Maga, existe e é praticada em memoria de IMI.

Outro ponto interessante, embora menos documentado e com poucas fontes sólidas, é a menção à sua passagem por ambientes ligados à dança, especialmente em cidades como Viena. Essas referências aparecem em alguns relatos, indicando que Imi teve contato com práticas que envolviam ritmo, controle corporal e fluidez de movimento.


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A segunda guerra mundial.

A vida de Imi Lichtenfeld foi profundamente marcada pelo contexto da Segunda Guerra Mundial e, principalmente, pela ascensão do Nazismo na Europa.

No final da década de 1930, Bratislava — onde Imi vivia — passou a ser um ambiente cada vez mais hostil para judeus. Apesar de o país garantir todos os direitos civis, políticos e religiosos aos judeus, o antissemitismo latente persistia, manifestando-se principalmente na década de 1930, em decorrência da crise econômica global e da situação em transformação na Alemanha. Com o crescimento da perseguição, violência e leis discriminatórias, ele deixou de ser apenas um atleta para se tornar um defensor ativo da comunidade judaica. Utilizando sua experiência no boxe, judô e luta, Imi organizou grupos para proteger bairros judeus de ataques antissemitas.

Durante a chamada Segunda República e o Estado Eslovaco, os ataques contra a população judaica tornaram-se mais frequentes. O jovem Imi foi obrigado a assistir a manifestações antissemitas. Grupos de jovens de nacionalidade alemã, ou estudantes do dormitório Svoradov, percorriam as ruas onde ele costumava circular, incitando seus correligionários a deixarem o espaço comum. Os ataques físicos contra judeus também aumentaram, como, por exemplo, o ataque a Fischer, proprietário do Hotel Judea (na atual Župný námestie), em março de 1939.

Em resposta a eventos semelhantes, Imi Lichtenfeld, juntamente com o renomado lutador David Unreich e outros membros do Makkabea Club, fundou uma unidade judaica de autodefesa. Foi durante esse período que ele adquiriu experiência em lutas de rua, Imi Lichtenfeld participou e organizou grupos de defesa formados por membros da comunidade judaica, atuando diretamente na proteção de pessoas diante da violência crescente nas ruas.

Essas experiências reais moldaram os princípios práticos e objetivos que mais tarde dariam origem ao Krav Maga. Foi nesse período que ele percebeu, na prática, que técnicas esportivas precisavam ser adaptadas para situações reais de rua — rápidas, diretas e sob extremo estresse.

Não eram movimentos formais de resistência como guerrilhas estruturadas, eram grupos locais, improvisados, formados por jovens da própria comunidade. O objetivo era proteger pessoas, e realizar ações ofensivas organizadas contra o regime.

Esses grupos atuavam de forma prática:

Escoltando moradores em áreas perigosas

Protegendo entradas de bairros

Reagindo a ataques nas ruas

Criando uma presença dissuasiva contra agressores.

Foi nesse cenário que Imi enfrentou algo decisivo:

a diferença entre lutar em um esporte e lutar para sobreviver.

Ele percebeu que:

Técnicas complexas falhavam sob estresse.

Regras simplesmente não existiam.

Havia múltiplos agressores e armas improvisadas.

Essa vivência foi o embrião do que viria a ser o Krav Maga.

Imi permaneceu em Bratislava mesmo após a cidade se tornar capital do Estado eslovaco colaboracionista. Com o aumento do perigo, decidiu deixar sua terra natal, assim como seu irmão Árpád, que sobreviveu à guerra na Suíça. Seus pais permaneceram na Eslováquia — uma decisão trágica: embora tenham escapado de uma deportação inicial em 1942, acabaram sendo assassinados em Auschwitz.


4

O Navio Pentcho.

Com o avanço do conflito e o aumento do risco de vida, Imi foi forçado a fugir da Europa. Ele embarcou no navio conhecido como Pentcho, uma embarcação improvisada que transportava refugiados judeus tentando fugir da Europa dominada pelo Nazismo.

Imi foi incluído na lista de passageiros de transporte de emigrantes judeus em 8 de novembro de 1939, e o navio zarpou em 18 de maio de 1940. A bordo do navio superlotado (projetado para cerca de 200 pessoas, mas com aproximadamente 500 a bordo) estavam cidadãos de diversos países sob o comando do Capitão Igor Markejevič.

Durante a viagem, Imi atuou ajudando na segurança, organização e sobrevivência dentro do navio — algo fundamental, já que as condições eram extremamente precárias.

A viagem foi extremamente difícil: o navio enfrentou falhas mecânicas, escassez de alimentos e acabou naufragando próximo a uma ilha no mar Egeu.

Esses acontecimentos fazem parte de uma das fases mais dramáticas da vida de Imi e ajudam a explicar a base realista do Krav Maga: ele não teve influencias em academias, mas em cenários de sobrevivência.

Esta parte da historia do Imi, encontra-se no livro ODYSSEY de John Bierman, não é uma biografia sobre Imi Lichtenfeld, mas narra de forma detalhado a jornada dos 500 judeus que tentaram escapar da Europa dominada pelo Nazismo a bordo desta embarcação improvisada.

O Pentcho partiu com estrutura precária, enfrentando desde o início problemas técnicos, superlotação e falta de recursos básicos. Ao longo da viagem, os passageiros lidaram com fome, sede, doenças e a constante incerteza sobre o destino.

Um dos momentos mais dramáticos narrados na obra é o naufrágio do navio próximo a uma ilha deserta no mar Egeu. Os sobreviventes, incluindo Imi ficaram isolados, sem suprimentos adequados, enfrentando fome, sede e total incerteza; dependendo da organização interna e da resistência física e emocional para permanecer vivos até o resgate. A sobrevivência dependia da organização, da resistência física e da capacidade de adaptação de cada um.

Cinco homens partiram em um bote salva-vidas em busca de ajuda, Após dias nessa condição extrema, o grupo foi resgatado.

A United States Holocaust Memorial Museum afirma que: Os sobreviventes foram resgatados e levados para campos de detenção sob controle da Itália fascista, e levados para Rodes (Rhodes), permaneceram lá por mais de um ano em um campo improvisado, prolongando ainda mais o sofrimento, depois foram soltos. A história deles também teve um final feliz, ao contrário da comunidade judaica de Rodes, que não escapou do transporte para Auschwitz.

Este contexto ajuda a entender o tipo de experiência extrema vivida por pessoas como Imi naquele período.

Há ainda outras fontes que alegam que Imi poderia não ter embarcado diretamente pelo Pentcho, mas ter chegado ao Egito através de outra embarcação, e posteriormente Imi poderia ter ajudado a trazer tribulação de judeus do Pentcho a antiga Palestina. todavia hoje se sabe que o nome de Imi lichtenfeld estava na lsita de passageiros da embarcação. Pode-se afirmar que, de uma forma ou de outra, ou por ter saída da Europa na embarcação, ou ter encontrado o Pentcho para ajuda-los e sua jornada a Israel, a tribulaão do Pentcho e Imi Lichtenfeld vivenciam juntos o episodio no Naufragio.

Durante a viagem no Pentcha, Imi salvou um menino que se afogava e contraiu uma infecção de ouvido. Como um dos companheiros de viagem de Imi, o médico Jozef Hercz, recordou mais tarde, a vida de Imi corria perigo iminente.Após a operação em Alexandria, ele sobreviveu, mas o lado esquerdo do rosto ficou paralisado. Os sobreviventes do naufrágio se recuperaram no Egito e decidiram se alistar no exército de exilados checoslovacos.


5

Legião Tcheca.

Após sobreviver à fuga da Europa em meio ao avanço do Nazismo, Imi deu mais um passo decisivo em sua trajetória: ingressou nas forças que combatiam diretamente o regime nazista.

Era maio de 1941 quando Imi se juntou a uma unidade militar checoslovaca no Oriente Médio, se integrou a uma unidade formada por exilados da antiga Tchecoslováquia, conhecida como Legião Tcheca. Durante esse período, Imi serviu sob o comando do famoso comandante, mais tarde Brigadeiro-General Karel Klapálka. Ele esteve envolvido em atividades militares ligadas ao esforço aliado no Oriente Médio, uma região estratégica durante a Segunda Guerra Mundial. Ao final da guerra, a unidade da qual Imi fazia parte estava alocada no Egito, sob controle britânico, reunindo combatentes que haviam fugido da ocupação nazista e desejavam lutar contra o regime, foi assim que o soldado número 1165, Imrich Lichtenfeld, lutou no Oriente Médio, em combates na Líbia, Síria, Líbano e Egito.

Dentro desse contexto, Imi passou a atuar como instrutor e combatente, utilizando sua experiência em lutas e preparo físico para contribuir com o treinamento de tropas. Sua vivência anterior — tanto no esporte quanto nos confrontos reais nas ruas — se mostrou extremamente valiosa em um ambiente militar que exigia eficiência, resistência e adaptação constante.


6

Israel.

Após o período da guerra, Imi Lichtenfeld deixou o serviço militar e decidiu viajar de comboio até Israel e se juntar á resistência judaica lá, iniciava ali uma nova etapa da sua vida, ainda sem a dimensão do impacto que suas experiências carregavam.

Sua chegada não parecia, à primeira vista, um momento grandioso, mas sim a continuidade de uma trajetória marcada por desafios e sobrevivência. No entanto, aquele passo silencioso acabaria se tornando decisivo. Sem perceber, Imi levava consigo conhecimentos e vivências que, mais tarde, influenciariam profundamente a forma como gerações inteiras seriam preparadas para se defender, deixando uma marca duradoura na história do povo judeu em Israel, uma marca de criação e construção.

Após deixar o serviço militar ligado ao Exército Britânico durante a Segunda Guerra Mundial, Imi chegou à região ainda sob mandato britânico. Como muitos imigrantes judeus da época, ele foi inicialmente acolhido em estruturas coletivas, comumente ligadas a assentamentos e comunidades organizadas, onde o foco era reconstruir a vida em um território ainda em formação.

Nesse período, Imi começou a se conectar com organizações de defesa locais, especialmente a Haganá — uma força paramilitar judaica que atuava na proteção das comunidades na região antes mesmo da criação oficial do Estado de Israel. Foi ali que suas habilidades começaram a ganhar destaque.

Com experiência real em combate, tanto nas ruas da Europa quanto no ambiente militar, Imi rapidamente passou a contribuir no treinamento físico e na preparação de combatentes, percebeu que sua experiência prática em combate tinha um valor enorme para os jovens que integravam as forças de defesa judaicas. Sua abordagem prática — direta, simples e eficiente, se encaixava perfeitamente na necessidade da época: preparar rapidamente pessoas comuns para situações de conflito real.

Treinou membros da Haganá, do Palmach e do Palyam a partir de 1944.

Naquele período, os recursos eram extremamente limitados: havia escassez de armas de fogo e, mesmo quando disponíveis, muitas vezes faltava munição. Diante dessa realidade, Imi passou a adaptar e desenvolver métodos de combate focados na eficiência e na sobrevivência. Ele ensinava como reagir e neutralizar ameaças utilizando o próprio corpo e recursos simples — como bastões, facas ou qualquer objeto disponível — sempre priorizando movimentos diretos, rápidos e funcionais.

Essas técnicas nasceram da necessidade e da urgência de um contexto real de conflito. Inseridas no esforço coletivo de defesa, contribuíram para preparar homens e mulheres em um momento decisivo, que culminaria, em maio de 1948, na consolidação do Estado de Israel e na independência do povo judeu.

Com o fim da guerra, a independência e a criação do Estado de Israel, o estabelecimento das Forças de Defesa de Israel (IDF)e suas estruturas foram reorganizadas. A HAgana e a Palmach se unificaram e criaram o Exercito de Israelense, na Palmach pela primeira vez Imi começou a ensinar técnicas de defesa pessoal e mais tarde e assumiu um papel fundamental: tornou-se o INstrutor-chefe, principal responsável pelo treinamento de defesa pessoal e preparação física para combate dentro do exército na IDF.

Atuando como principal instrutor nessa área, Imi dedicou anos ao desenvolvimento e aperfeiçoamento de métodos voltados à realidade do combate militar. Sua atuação foi contínua e determinante, permanecendo nessa função até sua aposentadoria das forças armadas, em 1966.

A partir dali, o que começou como necessidade se transformou em método, e o método, posteriormente em uma arte que atravessaria fronteiras.

Fontes: Livro Genesis, A hisoria do Krav Maga de Jeffrey Tuchman & George Mayers
https://historylab.dennikn.sk/20-storocie/krav-maga-vznikla-v-uliciach-bratislavy/
Livro: Odyssey by John Bierman -1984
https://www.banskabystrica.sk/podujatia/imi-lichtenfeld-krav-maga-a-jej-tvorca-i-vystava/